Tudo pode virar crônica
     
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O Samba da Meirinha

Descrição não é meu forte, mas vou fazer um esforço em nome da Meirinha. A Meirinha é responsável pela ótima noite de sexta-feira que tive, na companhia do povo da Casper e dos camaradas do Emilio. Meirinha é psicóloga e pedagoga, mas isso pouco interessa. Meirinha é uma senhora de meia-idade, mas isso também não vem ao caso. Meirinha é fá de boa música – e isso já é um detalhe de grande importância pra noite que tivemos. Meirinha é dona de uma casa na Vila Madalena que reúne gente que gosta de samba de boa qualidade. Meirinha vende cervejas, petiscos, jurupinga e espetos de churrasco para as pessoas que freqüentam sua casa. Enfim, Meirinha é uma pessoa que todos deveriam conhecer um dia.

Não é qualquer pessoa que entra no Samba da Meirinha. É preciso conhecê-la ou, no mínimo, estar acompanhado de alguém que a conheça. No meu caso, o conhecido da anfitriã era o Emilio, que a conheceu através do Arthur, que a conheceu... não sei como ele a conheceu. O Samba da Meirinha rola em seu quintal, ao lado de sua lavadora, perto de sua churrasqueira e de outros objetos que compõem a casa de qualquer senhora. As paredes são pintadas com desenhos de grandes nomes da música, como Ataulfo Alves, Cartola, Noel Rosa, Chico Buarque, Dorival Caymmi e mais uma série de compositores e intérpretes de grandes sambas que entraram pra história.

De início, Meirinha parece ser meio carrancuda, desconfiada até. Essa imagem cai depois de dois minutos de conversa. O mesmo não acontece com o pessoal que freqüenta seu samba, já que todo mundo tinha um semblante muito bacana no rosto durante todo o tempo, sem causar má impressão em nenhum momento. Pareciam ser felizes e estavam realmente felizes. Cada grupinho em uma mesa, tomando sua cerveja, cantarolando baixinho, batendo um papo animado nos intervalos das músicas, saboreando um churrasco...

Pausa para o churrasco da Meirinha: havia os espetos de carne, de lingüiça apimentada no ponto certo e os enroladinhos de mussarela. Todos extremamente deliciosos. Além do sabor, a Meirinha tem uma sacada muito boa, que faz com que todos se sintam muito à vontade, como se estivessem fazendo churrasco na casa de algum amigo: quem compra um espeto é o responsável por assá-lo. Cada um cuida do seu, quando é necessário qualquer um bota um pouco mais de carvão, divide um pouco da carne com o cachorro Urso e assim todos se divertem ao som dos sambas que embalam o quintal da Meirinha.

Eu nunca tinha visto samba acompanhado por piano. É verdade que não tocaram só samba, assim como eu também não sou nenhum conhecedor de música. Lembro de “Luiza” e “Minha História”, pra ficar em dois exemplos de “não-sambas”, que ficam ótimos no piano e foram tocadas na sexta. Mas também rolaram dezenas de sambas que foram muito bem tocados, acompanhados de violão e alguns instrumentos de percussão.

O Samba da Meirinha tem muitos outros detalhes ímpares, como o horário de fechamento (à uma da manhã, sem choro) e o rodo que anuncia que a casa está fechando. Contudo, se contar tudo acaba perdendo um pouco da graça pra quem vai lá pela primeira vez. Mas além da anfitriã, seria muita falta de educação não citar duas outras mulheres que contribuíram demais pra fazer a noite de sexta-feira algo BELÍSSIMO, pra usar a caixa alta que o Emilio acha bacana: a Luiza e a Sandra. A primeira por seu requebrar sensacional, por sua leveza enquanto samba, por sua simpatia e por seu sorrisão espontâneo até mesmo para os desconhecidos que lá estávamos. A segunda por sua voz. Quando Sandra cantou “Sob Medida”, do Chico (“Eu nasci pra você/ Sou igual a você/ Eu não presto/ Eu não presto”), cuja interpretação com a Fafá de Belém eu considerava insuperável, fiquei bobo. Que voz sussurrante, quase falada, baixinha, gostosa... O Arthur estava ao meu lado e, quando acabou a música, puxou uma salva de palmas como há tempos eu não via. Merecidíssima. Para a Sandra e para as outras duas mulheres que tanto abrilhantaram nossa noite de sexta.



Escrito por Damasceno às 16h37
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