Tudo pode virar crônica
     
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ôô♫ô♫ôô♫ô♫

É proibido assoviar — ou assobiar, como queiram, já que os dicionários permitem as duas formas. Aliás, não é proibido, apenas não se assovia nas ruas de São Paulo. Aquele que o faz recebe olhares de soslaio, sobrancelhas contraídas de desaprovação e, raramente, um sorriso incentivador, provavelmente de assobiadores em potencial, reprimidos pelo desuso de algo tão bacana.

 

Essa conclusão é precoce, admito. Tudo começou há menos de 24 horas, confesso, mas as primeiras impressões foram assustadoras. Explico a seguir como se iniciou essa observação.

 

No simpático livro gFolha Explica: Chico Buarqueh, em determinado momento Fernando de Barros e Silva fala sobre a importância de gA Bandah no cenário musical dos anos 60. Para ilustrar de modo mais bacana o que a canção representou, o autor reproduz alguns comentários da imprensa daqueles idos. Nelson Rodrigues, sempre atento ao que se passava nas ruas do Rio de Janeiro, disse na ocasião que gA Bandah teve o importante papel de fazer o brasileiro voltar a assobiar. Genial!

 

Desci do ônibus com isso na cabeça, disposto a ver (e a ouvir) o quanto os brasileiros (ou os paulistanos) têm assobiado. A pesquisa de campo foi decepcionante: dois períodos de 15 minutos em pontos de ônibus diferentes... e nada de assobios. Os resultados do aprofundamento trouxeram dados mais interessantes.

 

Hoje acordei disposto a assobiar o máximo possível enquanto estivesse com gente ao meu redor. Fiz isso em dois pontos de ônibus, depois repeti a operação no trajeto da Paulista até meu curso de espanhol e ao longo dos três quarteirões que separam a empresa em que trabalho da avenida Queiroz Filho. Meu repertório foi restrito, é verdade, somente com gA Bandah e algumas marchinhas de carnaval, mas fica a sugestão: façam isso e reparem nas reações das pessoas.

 

A maioria me olhou com indiferença. Uma senhora ficou me olhando tão estranho que fiquei sem-graça. Um tiozinho esboçou um sorriso tímido. Outro senhor me olhou como se eu fosse um marginal. Uma moça gostosa que lavava a calçada da rua em que trabalho deve ter achado que fiz algum gracejo e soltou um ghumpf!!h.

 

Continuarei com esse árduo trabalho nos próximos dias. Vou tentar algo mais contemporâneo para ver se as reações são melhores. Se houver boa aceitação, comentarei-as por aqui.



Escrito por Damasceno às 11h56
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Restos


Sim, adoro restos. Acho que são poucas as pessoas que desconfiam disso, mas é um fato. Falo de restos de comida, que fique bem claro. Mas não de qualquer comida. Refiro-me especialmente a pratos e lanches bacanas, comprados fora de casa, na companhia de alguém legal. Complicado? Sim, concordo.

 

Exemplo: sempre gostei de ir ao McDonald´s com amigas, namorada, irmã e mulheres em geral. Comilonas à parte, a maioria não agüenta comer todas as batatas fritas ou parte do lanche. Posso estar saciado, ter comido minhas batatas e mais os dois lanches habituais, mas não resisto a um “não quer comer minhas fritas?”. Pura gula.

 

Passei a ter certeza disso na última sexta. Fui ao tradicional Restaurante do Primo (leia os textos antigos) com as meninas do meu trabalho. Pedi peixe. Uma delas pediu strognoff de filet mignon com fritas. Como fartura é uma palavra comum no Primo, sobrou um bocado de sua comida. Eu já havia terminado, estava saciado, tinha comido pra cacete, mas tudo isso passou com uma frase simples: “É chato desperdiçar, né?”. Não teve jeito. A gula foi mais forte e não sobrou nada.

 

Felizmente isso não acontece quando saio pra comer com algum amigo. Seria decepcionante, já que raras são as vezes que homens não comem tudo o que está no prato ou na bandeja. Fico pensando se isso é grave. Qual será o próximo passo? Ficar secando as pessoas enquanto elas comem, à espera de um restinho qualquer? Assaltar pratos alheios quando faltarem poucas garfadas para o final da refeição? Comer mais do que o normal para não dar vez à gula?



Escrito por Damasceno às 16h35
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