Tudo pode virar crônica
     
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Crônica dos três buracos

Por uma dessas surpresas tecnológicas, eis que ontem surge em meu MSN o velho Carlos Damasceno, primo que era figura quase sempre presente em casa durante anos e anos. Entre brigas, brincadeiras de Comandos em Ação e porções gigantescas de Fandangos ao longo da infância, a principal lembrança que tenho dele é a inesquecível história dos três buracos.

 

Nas férias, era comum o Carlos e outro primo, o Ivan, ficarem em casa. Eu era o mais novo e, como bom fedelho, prestava atenção em tudo o que eles, quatro anos mais velhos, me falavam. Eu só não contava com um comentário feito pelo Carlinhos numa tarde estranha de domingo. “Nandão (é como ele me chama até hoje), sabia que toda mulher tem três buracos?”.

 

Sim, ele estava falando de sexo. Àquela altura, com meus dez anos, nunca tinha visto um filme pornô. No máximo eram umas Plyboys — e olhe lá. “E dá pra meter nos três”, falava meu empolgado primo. Ivan, o outro primo, achava aquela conversa meio estranha e falou que eram “apenas” dois mesmo. Só que o Carlinhos sempre foi uma espécie de crânio juvenil (sabia tudo de geografia e estudava desde pequeno em escola particular), enquanto o Ivan era meio lerdinho. No fim, valeu a versão dos três buracos.

 

Todos crescemos, cada um foi para o seu lado, mas ficou na minha cabeça a história dos três buracos. As aulas de ciências não saciaram minha dúvida e após inúmeras análises em publicações de qualidade duvidosa, vi que algo estava estranho. Depois, com os filmes pornôs, tudo ficou mais claro. Mais tarde, in loco, disfarçando o riso por lembrar dos “três buracos” na hora H, as coisas ficaram ainda mais claras (e gostosas).  

Ontem, ao falar com o Carlos, não toquei no assunto. Mas fiquei com vontade. É chato perder o contato com algumas pessoas. A distância traz uma total falta de intimidade, até mesmo para piadas bobas. Será que ele lembra dessa história? Será que atribuiria o “terceiro buraco” à uretra? Será que ele está mudado e apenas riria, dizendo que tinha falado asneira? Será que ele realmente acreditava nesse papo?



Escrito por Damasceno às 15h38
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