Tudo pode virar crônica
     
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O anzol

Fui ao dentista ontem, mas poderia ter procurado um arqueólogo. "Em menos meia horinha ele sai daí", disse o doutor Ênio, enquanto me aplicava a primeira das seis anestesias... delícia!

Pena que não foi tão simples assim. Os 30 minutos passaram e o dentista precisou cortar o miserável siso. Metade fora, aí veio o problema pra valer. O dente já estava bambo, mas nada de sair. O negócio era cavar, cavar e cavar... e nada de chegar o final do dente.

Depois de 65 minutos razoavelmente tensos, eis que o teimoso pula da minha boca. "Parece um anzol", disse o dentista, vitorioso. Em seguida vem sua secretária e pergunta pra ajudante se foi tudo bem. "Foi sim. Olha como é comprido". Risadinhas maliciosas de ambas. Eu, sem poder rir, devo ter ficado vermelho.



Escrito por Damasceno às 12h01
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Agonia

Se eu fosse católico, minha consciência diria que é pecado o que vou dizer. Paciência. Ontem, no ônibus, vi que tenho medo de algo inofensivo. Talvez não seja medo, e sim uma agonia, um incômodo em estar próximo de surdo-mudos.
 

Quando saio da faculdade no horário certo (às 22h30), é comum tomar o mesmo ônibus em que vários homens surdo-mudos estão. Normalmente eles se sentam antes da catraca ou bem no fundo. Estão sempre em grupos, quase sempre estão alegres e, dentro de suas limitações, se comunicam durante toda a viagem.

 

Ontem, com o ônibus cheio, fui direto para o fundo. Não vi que eles estavam lá. Eu já tinha sentido essa agonia em outras ocasiões, mas simplesmente saí de perto. Dessa vez não deu. Que sensação horrível! “Hummmmm, afffff, iiggggg, humm, hummm...”. Só se ouvia isso, enquanto eles faziam gestos e mais gestos.

 

Depois de uns 20 minutos, quando achava que já estava me acostumando, eis que algum deles conta algo divertido (suponho) e todos começam a “rir”. Bateu uma sensação muito estranha, um arrepio medonho. “Hamf, hamf, hamf, hamf” era o que dava pra ouvir, num tom alto, descontrolado, assustador. No total foram quase 30 minutos de incômodo, apreensão, vontade de descer logo.

Quando criança eu tinha medo de anões. Depois de grande ter medo de surdo-mudos era o que faltava...



Escrito por Damasceno às 09h40
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