Histórias cheias de interrogações

A morte de Tancredo sempre foi algo curioso pra mim. Curioso também era o fato de eu nunca ter ido atrás de livros, reportagens e sites que tratam do assunto. Até que, depois de ouvir um cobrador (viva os ônibus, fontes inesgotáveis de ter-o-que-falar!) tocar nesse assunto, lembrei que eu tinha em algum lugar um livro sobre a vida do homem. Fui a ele. E não me arrependi.
Eu tinha menos de cinco anos quando o homem morreu (em 2005 já vai fazer 20 anos... pqp!). Não lembro de quase nada. Acho só que vem dessa época o medo da música de plantão de jornalismo da Globo. Mas falando sério: o livro serviu pra que eu tivesse de noção de pelo menos duas coisas: da importância de Tancredo naquele momento (de redemocratização) e do tanto de cagadas que foram feitas durante o período em que ele esteve internado.
O nome do livro é "Tancredo vivo - casos e acaso". Seu autor é Ronaldo Costa Couto, figura próxima do ex-presidente, um cara que fez parte do secretariado do então governador Tancredo e ocupou outros cargos de responsabilidade. É difícil comprar 100% da versão de uma pessoa que tinha ligação com a personagem principal de um livro, mas as reportagens que ele fez servem pra comprar pelo menos uns 90%.
Aqui, vou falar das informações que comprei: certas ou não, estão no livro e me pareceram bem plausíveis.
1. Só Tancredo poderia ser um presidente civil naquele momento Isso devido a todo seu histórico político, conciliador, mineiro. Figuras como Ulisses, por exemplo, eram vistas como revanchistas, poderiam trazer uma série de problemas aos militares.
Sabendo disso, Tancredo procurou retardar o máximo a intervenção cirúrgica a que foi submetido na véspera de sua posse (ele tinha um tumor benigno no intestino, mas morreu por infecção hospitar). Ele dizia que queria tomar posse de qualquer jeito, nem que fosse numa maca. Não deu tempo.
2. O presidente da República foi operado como um porco Exagero meu à parte, Tancredo foi operado num hospital sem as mínimas condições de higiene. E pior: na presença de cerca de 25 curiosos, entre eles ministros e deputados, condição absurda para qualquer tipo de cirurgia, justamente pelos riscos de contaminação de vírus ou bactérias.
3. Toda história trágica que envolve presidentes tem sua ponta de teoria da conspiração Frase de um dos filhos de Tancredo: "Indo para o hospital, meu pai pediu para que eu não deixasse que fizessem com ele o mesmo que fizeram com Lacerda, Jango e Juscelino".
Em tempo: Lacerda morreu depois de complicações em uma cirurgia de apendicite; Jango teve problemas com remédios, que teriam sido trocados no hospital; JK num acidente de carro bem estranho.
O livro tem várias entrevistas bacanas. Desde pessoas como Sarney, Aécio Neves, médicos e outros envolvidos na história. Há quem desconfie de algo de podre, assim como há outros que pensam em mera fatalidade. De qualquer forma, bate uma sensação de republiqueta de merda essa em que vivemos.
Fica uma frase bacana de Tancredo, endereçada a Sarney, logo depois de o vice ter tomado posse: "Na política, mais importante que os discursos são os exemplos". Mais atual, impossível.
Escrito por Damasceno às 14h35
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