Tudo pode virar crônica
     
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Chupinhando...

30/06/2005
Chico aponta um "movimento geral de idiotice"

Compositor brasileiro critica mundo das celebridades em entrevista

Ima Sanches
Em Barcelona


Ele é um sonhador insone, um poeta e um brincalhão. Aos 21 anos, quando estudava arquitetura, começou a compor canções e se transformou em um mito adorado pelas mulheres. Mas, quando fala de mulheres, fala de suas filhas.

AFP  
Para Chico, o interesse fútil pelos famosos nasceu nos anos 90 e é dominante hoje
"São minhas amigas. Ontem vi Elena em Barcelona, que antes me acompanhava em turnês, mas agora vai com seu marido, Carlinhos Brown. A maior é atriz e almoçamos juntos toda semana, e a outra, filósofa e trapezista, me leva para voar de asa-delta".

Nos anos 80 começou a escrever teatro e romances e também triunfou. "Se me perguntar o que vale a pena, direi que o amor, a amizade, o riso, tudo de belo que vi, as canções que ouvi, os livros que li, um banho de mar, uma partida de futebol, uma água de coco..."

A pedido de La Vanguardia, o compositor resume o atual momento de sua vida:

"Tenho 60 anos. Nasci e vivo no Rio de Janeiro. Estou separado e tenho três filhas, duas netas e meia e um neto: Chico. Sou um democrata que ainda crê na possibilidade de um socialismo democrático. Já vivemos quase duas décadas de idiotice globalizada. Sou ateu. Publico 'Budapeste' pelas editoras Salamandra em castelhano e La Magrana em catalão".

Leia abaixo a entrevista.

La Vanguardia - Uma vida rodeado de mulheres.

Chico Buarque de Holanda -
Sim, muitas irmãs, filhas, netas...

LV - O que aprendeu com elas?

Chico -
Continuo com a curiosidade intacta, com o mesmo desconhecimento e essa estranha admiração. Sempre me surpreendem, e suas opiniões me interessam mais que as dos homens.

LV - O senhor encabeça a lista de homens mais sexies do Brasil.

Chico -
Isso é ridículo, e essa lista é ridícula. Eu tenho 60 anos, não está vendo?!...

LV - Sempre fugiu da fama?

Chico -
Não, participei de festivais e busquei o reconhecimento de meu trabalho. Mas depois vem a fama boba, oca, que é a sombra do reconhecimento e que cuida de se o artista está gordo ou com quem vai para a cama. Há 40 anos não era assim.

LV - Como era?

Chico -
Veja, estávamos todos bêbados em Ipanema dizendo coisas absurdas, mas nada disso saía na imprensa. Hoje a gente vai assistir a uma partida de futebol e vem o jornalista perguntar como está a partida. Não gosto disso tudo.

LV - Mas é o que vende.

Chico -
Há pessoas que perseguem essa fama que não corresponde a nada. É insólito.

LV - Por que teremos chegado a esse ponto?

Chico -
Eu nunca vi um movimento geral de idiotice como o de hoje. Mas em meu país, de 15 anos para cá, vem crescendo perigosamente. A idiotice nos rodeia, eu mesmo tenho medo de ficar idiota...

LV - Pense bem...

Chico -
Talvez você tenha razão... Tudo seria mais fácil, nada me surpreenderia mais e poderia dar entrevistas sem escrever livros.

LV - ...?

Chico -
Sim, sim, eu anuncio que vou escrever um novo livro e passo dois anos dando entrevistas. Depois falo sobre o livro que não saiu... E assim passa a vida. Hoje é possível viver de feira literária em feira literária. Há festivais toda semana em alguma parte do mundo. E agora que finalmente sou escritor...

LV - Custou-lhe três livros.

Chico -
Sim, mas agora já me consideram como tal, assim posso viver como um turista literário; certamente conseguiria ser muito mais conhecido como escritor do que sou hoje sem necessidade de escrever mais livros.

LV - Falemos de épocas mais intensas.

Chico -
Eu não sou nostálgico, não penso que antes éramos mais bonitos, mais magros e mais felizes, embora tudo isso seja verdade. Veja, não gosto de lembrar nem os anos 60 nem os 70, dos 80 não me lembro e nos 90 começou a idiotice. Nunca concordei muito com o que me cercava. Eu gosto de estar vivo, fazer as coisas no meu ritmo, sem pressões.

LV - Então deve ter vivido muito mal a ditadura.

Chico -
No final de 68 começou a verdadeira censura e a perseguição aos opositores do regime, políticos, simples artistas ou fumantes de maconha. Era preciso combater isso, e os artistas mais populares combatemos com a música, por isso perdemos qualidade artística.

LV - O senhor passava a vida na prisão.

Chico -
Como todos, mas saía sempre. Só dormi na prisão quando era menor de idade e roubava carros.

LV - O filho de um ilustre historiador e sociólogo roubando carros?

Chico -
Sim, roubávamos carros para circular pela cidade, e quando acabava a gasolina os deixávamos; no dia seguinte fazíamos o mesmo, até que me pegaram. Mas durante a ditadura me chamavam continuamente ou vinham me buscar cedo demais e me levavam para perguntar por que havia cantado isso ou aquilo.

LV - Chegou a sentir medo?

Chico -
Quem tem cu tem medo, dizemos no Brasil. Recebia ameaças, cartas. Hoje as pessoas no Brasil têm medo de outras coisas e andam cercadas de guarda-costas, sobretudo os famosos, porque ter guarda-costas o torna ainda mais famoso.

LV - O senhor é um ícone da música: poderia ter dois ou três.

Chico -
Não gostaria de ser um ícone. Parece horrível. Chegaram a me catalogar de "monstro sagrado". Que medo!

LV - Para quem escreve as letras de suas canções?

Chico -
São desafios a mim mesmo: você é formidável, prove isso, diga coisas bonitas. Lembro-me de Vinicius de Moraes, que quando viajava só e tinha sono, cantava canções de ninar para ele mesmo e passava a mão pelo rosto até que dormia. Eu tentei isso e não deu certo.

LV - O senhor tem insônia?

Chico -
Sim, por isso sempre trabalho de noite, o que é ótimo para a insônia. Quando consigo dormir, escrevo música nos sonhos. Algumas vezes compus coisas maravilhosas, mas depois percebi que eram de outros.

LV - Por que está há seis anos sem atuar?

Chico -
Lancei o disco, fiz um ano de concertos, depois lançaram o disco do concerto do disco e depois o disco do disco do concerto do disco... Depois colaborei em teatro, escrevi o livro e agora estou aqui com você.

LV - Como é sua mãe?

Chico -
Tem 95 anos e repete constantemente: "Juízo e alegria!", e eu lhe digo: "Mamãe, ou juízo ou alegria". Meu pai era um sonhador e ela equilibrou seu lado boêmio, impunha a disciplina mas com muito senso de humor, com isso: com juízo e alegria. Sete filhos!

LV - O que significou para o senhor pôr filhos no mundo?

Chico -
É formidável. Quando a primeira nasceu eu tinha 24 anos, foi quase uma irresponsabilidade. Mas as três são melhores que seu pai, e creio que se cada um de nós pudesse dizer isso, se Bush o dissesse, por exemplo, em 30 anos teríamos um mundo melhor.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Escrito por Damasceno às 11h11
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Sensacional



A figura acima é a capa de hoje do jornal "Olé", uma espécie de Lance! da Argentina. Histórica, depois dos dois chocolates de ontem.

Escrito por Damasceno às 10h50
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