Sobre brancos deprimidos e a famosa chuva de sapos
Revi “Magnólia” por causa de uma frase solta de um outro filme (“Golpe Baixo”, comédia com o Adam Sandler). Em determinado momento, um dos personagens (um presidiário negro) pergunta: "Por que os brancos sofrem tanto de depressão?"
Ri da frase e fiquei pensando nos casos de depressão de amigos, parentes e conhecidos em geral de que tomei conhecimento. Pensei também naqueles que provavelmente sofram disso mas nunca procuraram o tratamento devido. E cheguei à conclusão de que nunca entendi o que se passa com essas pessoas, provavelmente por não ter a dimensão exata de seus dramas, embora sempre os tenha considerado um tanto quanto exagerados.
Voltando à "Magnólia". No filme, os nove personagens têm algum tipo de problema, mais ou menos grave. Além disso, todos não sabem muito bem lidar com a situação em que estão. Todos são brancos de classe média ou superior. Todos têm alguma ligação na história, como manda a boa e velha fórmula dos chamados filmes multiplot.
Talvez seja possível dizer que a casualidade é o fio condutor da história de "Magnólia". Os fatos vão acontecendo, os problemas vão aumentando, os personagens demonstram cada vez mais não saber como alterar o rumo de suas vidas, tudo caminha para a sarjeta. Aí vem uma das belas canções do filme para dizer que "isso nunca vai acabar enquanto você não se tocar".
É esse o ponto que me incomoda: as pessoas não souberam o que fazer para resolver uma situação, mesmo quando seus problemas são infinitamente inferiores aos de quem realmente passa por necessidades na vida. E isso, com o perdão da generalização, é muito classe média (ou branquinho demais, para usar a frase da comédia do Adan Sandler), é muita incapacidade para lidar com determinadas situações.
E caem os sapos
O prólogo de "Magnólia" é a melhor cena para se rever depois de assistir ao filme e ficar com uma interrogação na cabeça devido à chuva de sapos. São relatados três fatos absurdos, seguidos pelas seguintes frases: "Isso não é mera coincidência. São coisas que acontecem o tempo inteiro".
No meio de uma história conduzida pela casualidade, a chuva de sapos é a única coisa não casual que acontece. É necessário que algo tão estranho ocorra para que as pessoas se toquem e resolvam fazer algo que mude suas vidas.
Na primeira vez em que vi "Magnólia" fiquei mal à beça, por estar, coincidentemente, numa fossa daquelas – e é impossível não se reconhecer em algumas atitudes dos personagens. Na segunda, estava bem, mas fiquei mais preocupado em curtir as excelentes atuações (destaque para Tom Cruise e Julianne Moore). Depois revi algumas cenas, sempre em exibições na TV a cabo. Agora, com calma e tempo (viva as férias!) para voltar algumas cenas, tentei vê-lo por esse lado da depressão e daquilo que é necessário fazer para combatê-la. Seja qual for o viés, "Magnólia" é sempre um tapa na cara, cuja intensidade da dor depende do quanto nos serve a carapuça de seus personagens.
Escrito por Damasceno às 17h13
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