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Retratos, Nobokov, Chico
Tenho visitas em casa. Quando elas ficam por mais de dois dias, sempre há um risco: D. Helena desenterrar do fundo do armário as dezenas de álbuns de fotos que guarda desde seu casamento. Ontem à noite o risco mais uma vez se tornou realidade. Mas dessa vez foi diferente: ri pra valer, senti saudade de algumas pessoas e viajei por horas pensando em determinadas épocas da vida, boas demais para serem lembradas tão poucas vezes.
Mas algumas fotos em especial me chamaram muito a atenção: umas cinco minhas de bebê (estão em fotosdecapa.nafoto.net), as do casamento de meus pais (impagáveis!) e algumas da época de adolescente. Estas foram automaticamente linkadas para os tempos em que não havia problema em olhar para meninotas de 15, 16, 17 anos e pensar besteiras. Talvez por isso “Lolita” faça tanto sucesso. Talvez por isso um trecho de “Carioca”, do Chico, onde ele remete a “pitombas” não saia da minha cabeça há dias, assim como várias frases de “Tango do Covil” e “A noiva da cidade”, transcritas logo abaixo para que cada um tire suas próprias conclusões.
Tango do covil Chico Buarque
Ai, quem me dera ser cantor Quem dera ser tenor Quem sabe ter a voz Igual aos rouxinóis Igual ao trovador Que canta os arrebóis Pra te dizer gentil Bem-vinda Deixa eu cantar tua beleza Tu és a mais linda princesa Aqui deste covil
Ai, quem me dera ser doutor Formado em Salvador Ter um diploma, anel E voz de bacharel Fazer em teu louvor Discursos a granel Pra te dizer gentil Bem-vinda Tu és a dama mais formosa E, ouso dizer a mais gostosa Aqui deste covil
Ai, quem dera ser garçom Ter um sapato bom Quem sabe até talvez Ser um garçom francês Falar de champignon Falar de molho inglês Pra te dizer gentil Bem-vinda És tão graciosa e tão miúda Tu és a dama mais tesuda Aqui deste covil
Ai, quem me dera ser Gardel Tenor e bacharel Francês e rouxinol Doutor em champignon Garçom em Salvador E locutor de futebol Pra te dizer febril Bem-vinda Tua beleza é quase um crime Tu és a bunda mais sublime Aqui deste covil
A noiva da cidade Francis Hime - Chico Buarque
"Tutu-Marambá não venha mais cá” Que a mãe da criança te manda matar Tutu-Marambá não venha mais cá Que a mãe da criança te manda matar"
Ai, como essa moça é descuidada Com a janela escancarada Quer dormir impunemente Ou será que a moça lá no alto Não escuta o sobressalto Do coração da gente
Ai, quanto descuido o dessa moça Que papai tá lá na roça E mamãe foi passear E todo marmanjo da cidade Quer entrar Nos versos da cantiga de ninar Pra ser um Tutu-Marambá
Ai, como essa moça é distraída Sabe lá se está vestida Ou se dorme transparente Ela sabe muito bem que quando adormece Está roubando O sono de outra gente
Ai, quanta maldade a dessa moça E, que aqui ninguém nos ouça Ela sabe enfeitiçar Pois todo malandro da cidade Quer entrar Nos sonhos que ela gosta de sonhar E ser um Tutu-Marambá
"`Boi, boi, boi, boi da cara preta Pega essa menina que tem medo de careta''
Escrito por Damasceno às 16h34
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