Tudo pode virar crônica
     
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Ciclo gastronômico

Ontem completei uma das principais experiências gastronômicas possíveis. Ao degustar um delicioso milho verde no Largo da Batata, fechei um ciclo: comi as seis mais importantes iguarias disponíveis para os milhares de populares que passam por esta região de São Paulo.

 

Ao longo das últimas semanas eu já havia comido os tradicionais churrasquinhos de gato e grego (também conhecido como “perna de mendigo”). Semana retrasada me aventurei na nova moda da região: as porções de fritas vendidas em embalagens de hambúrguer. Semana passada degustei a popular calabresa, enquanto nesta semana me arrisquei no popular pastel, quase tão bom quanto os que são vendidos nas feiras. O milho verde encerrou o ciclo.

 

Algumas coisas chamam a atenção nesse comércio popular: primeiro, obviamente, é o baixo preço. O milho, o churrasco de gato, a calabresa e o pastel saem por R$ 1,50 cada. As fritas podem ser compradas em porções de R$ 1,00 ou R$ 2,00, enquanto o churrasco grego custa a bagatela de R$ 1,00 e ainda vem acompanhado de um copo de refresco. Segundo, os vendedores têm uma jornada de trabalho extremamente puxada: sempre estão cercados e precisando repor seus estoques para atender sua impressionante demanda.

 

O churrasco de gato foi a opção que menos apreciei. O espeto era bem servido, mas havia muitos pedaços de gordura. Além disso, o vendedor foi um tanto quanto muquirana na quantidade de farofa colocada no espeto. Ganha no máximo uma nota 4.

 

As fritas ganham uma nota um pouco melhor. A qualidade da batata parecia ser boa, mas o óleo não ajudou. Entre os cinco petiscos, aparentemente é o mais vendido atualmente. Mesmo a porção pequena vem com uma quantidade boa, capaz de preencher o estômago dos menos famintos. Fica com uma nota 5.

 

Em seguida, vêm empatados a calabresa e o milho verde. A primeira não é de muita qualidade, mas vem com um vinagrete caprichado e, por ser colocada no meio de um pão francês, cumpre bem a função de matar o fome dos transeuntes. Já o milho é o milho. Quem comeu um, comeu todos e sentiu o mesmo cheiro delicioso. Capriche no sal. Nota 6 para os dois.

 

Em segundo lugar, fica o pastel. Experimentei o de carne com queijo e o de bauru. O primeiro estava supimpa, mas o segundo estava num nível um pouco inferior, provavelmente pela qualidade discutível do presunto (ou seria apresentado?). Apesar de não se igualarem aos tradicionais vendidos nas feiras, vale uma merecida nota 7.

 

O campeão do Largo da Batata, surpreendentemente, é o churrasco grego. Tanto pela relação custo-benefício quanto pelo gosto bom no sanduíche. A receita é simples: pão francês, carne fatiada (não soube identificar qual o tipo de carne) e molho vinagrete. Chamado de “Jesus me chama” por alguns, o apelido é injusto. Enche a barriga, tem cheiro muito bom e, por mais feio que pareça, não é exatamente algo nojento. Vale uma nota 7,5.

Escrito por Damasceno às 12h58
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O povo está com sono

Volta e meia me vejo obrigado a escrever sobre o que se passa nos ônibus. Mesmo quando não há nada interessante para ver ou ouvir, fico à procura de algo, apenas para manter minha tese de que eles são um termômetro fidelíssimo do que pensa e sente grande parte da população.

 

De uns tempos pra cá, vem aumentando demais a quantidade de pessoas que dormem dentro dos coletivos. Reparo mais nessas pessoas quando estou em pé, talvez por inveja de não estar sentado ou por minha tremenda incapacidade de tirar um cochilo em meio aos solavancos das avenidas e ruas paulistanas.

 

O fenômeno não tem distinção de gênero ou faixa etária. Crianças, homens, mulheres, estudantes, trabalhadores braçais, gente bem e mal vestida, na frente, no meio e no fundo dos ônibus. A exceção, curiosamente, são os velhinhos – raramente vejo algum deles, sentados ou não em seus assentos preferenciais, tirando uma pestana.

 

Ontem, voltando para casa, espremido logo após a catraca e pouco antes de uma das portas da parte traseira do ônibus, havia um pequeno grupo que provava ser possível mais de dois corpos ocuparem o mesmo lugar no espaço. No meio da viagem, uma jovem senhora se voltou para sua colega, esboçando um discreto sorriso. Um senhor de mais ou menos 40 anos, forte, mulato e com poucos cabelos desempenhava uma façanha: encostado à porta, ele dormia em pé, tranqüilamente, com uma expressão angelical.

 

Mais de 15 minutos se passaram até que o homem acordasse. Aliás, ele só despertou porque a partir de um determinado momento (depois que o corredor exclusivo da Francisco Morato acabou) a porta em que estava encostado começou a ser aberta a cada ponto. Chateado pela interrupção brusca de seu cochilo, o distinto reclamou: “Esse motorista tá indo muito rápido...”.

Escrito por Damasceno às 15h33
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Chico e as mulheres

No Dia da Mulher, nada como ouvir Chico Buarque. Há tempos é chavão dizer isso, mas ninguém fala melhor sobre as mulheres do que ele na música brasileira.

Já houve quem tenha estudado a obra de Chico apenas por esse viés (Adélia Bezerra de Meneses, com seu interessantíssimo “Figuras do Feminino na Canção de Chico Buarque”), mas eu me permito aqui fazer breves comentários, todos eles rasos, apenas sobre algumas canções que levam nomes de mulheres em seus títulos – deixando de fora, portanto, músicas lindas com o eu lírico feminino, como “Atrás da Porta”, “Olhos nos olhos”, “Folhetim” e “Palavra de mulher”.

A primeira que me salta aos olhos é “Teresinha”. Três grandes estrofes, três pequenas histórias, três modos diferentes de ver o amor e de mostrar aquilo que uma mulher quer de um homem.

“Carolina” é o retrato do esforço de um homem para tentar agradar a uma mulher. “Mil versos cantei pra lhe agradar”, mas mesmo assim Carolina não sai da janela, de onde fica vendo a vida passar, desanimada, sem perspectivas, sem aproveitar as coisas boas da vida.

“A Rita” é a mulher que destroça um homem: matou o amor que havia, causou só perdas e danos, levou embora os planos do pobre rapaz, seu disco do Noel Rosa e até mesmo seu sorriso. Ou seja, não há na obra do Chico apenas as mulheres com quem desejamos passar o resto de nossas vidas, mas há espaço também para as que fazem um belo estrago.

“A Rosa” é um meio termo entre esses dois tipos de mulheres. A relação é conturbada: ora ela é “quietinha”, “coitada” e “querida”, mas em alguns momentos também é “bandida” e “vadia”, um “espinho cravado em minha garganta”. Talvez seja um tipo de mulher mais próximo da realidade que vemos por aí...

Das mais lindas música de Chico é “Beatriz”. Mas aqui admito uma tremenda ignorância a seu respeito. Sei apenas que foi composta para o balé “O grande circo místico”. Sua versão mais famosa foi gravada por Milton Nascimento. Recentemente, Ana Carolina quase a estragou, ao exagerar nos berros. Fica aí a letra pra quem não conhecer:

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Sim, me leva para sempre, Beatriz
Me ensina a não andar com os pés no chão
Para sempre é sempre por um triz
Ai, diz quantos desastres tem na minha mão
Diz se é perigoso a gente ser feliz

Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se um arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida

Pra terminar, só mais duas. “Cecília” é uma demonstração de amor absoluto, na qual se diz que “meus lábios de leve tremem por ti” e que “quando te vejo nem quase respiro”. E como não falar de “Iolanda”, composta pelo cubano Pablo Milanês, mas cuja versão feita por Chico foi capaz de tornar sua poesia ainda mais bonita? Fica aí sua íntegra (todas as letras podem ser vistas em www.chicobuarque.com.br):

Esta canção
Não é mais que uma canção
Quem dera fosse uma declaração de amor
Romântica
Sem procurar a justa forma
Do que me vem de forma assim tão caudalosa
Te amo, te amo
Eternamente te amo

Se me faltares
Nem por isso eu morro
Se é pra morrer
Quero morrer contigo
Minha solidão
Se sente acompanhada
Por isso às vezes sei que necessito
Teu colo, teu colo
Eternamente teu colo

Quando te vi
Eu bem que estava certo
De quem me sentiria descoberto
A minha pele
Vais despindo aos poucos
Me abres o peito quando me acumulas
De amores de amores
Eternamente de amores

Se alguma vez
Me sinto derrotado
Eu abro mão do sol de cada dia
Rezando o credo
Que tu me ensinaste
Olho teu rosto e digo à ventania
Iolanda, Iolanda
Eternamente Iolanda
Iolanda
Eternamente Iolanda
Eternamente Iolanda.


Escrito por Damasceno às 11h52
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