Tudo pode virar crônica
     
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Olhares cúmplices

I

 

O rapaz está parado no ponto de ônibus. Um senhor está perto dele. Distraídos, olham o passar dos carros, observam o tráfego, pensam na vida. Uma loira com calça apertada e decote generoso atravessa a rua. “Que gostosa!”, pensa o rapaz. “Ai, que saudade dos meus 25 anos”, lamenta o senhor.

 

Pensamentos diferentes, mas cúmplices. Assim que a loira passa, o rapaz troca um rápido olhar com o senhor. Um percebe que o outro teve a mesma admiração pela moça. Ato contínuo, o senhor tira uma das mãos do bolso, esfrega-a no queixo, balança a cabeça afirmativamente e estica o lábio inferior. O rapaz respira fundo, pisca duro e repete o o movimento de cabeça feito pelo homem.

 

II


Escola de inglês. Professores e alunos não param de circular, seja no hall de entrada, nas portas das classes ou na biblioteca. O bedel é o único que circula sem parar por todos os lugares. Em suas idas-e-vindas, sempre dá um jeito de passar perto da cantina. Ele nunca fala nada, mas a atendente muitas vezes deixa de falar quando o vê – ou fala de modo diferente, medindo as palavras, com um olho no menino que compra seu enroladinho de presunto e o outro sem direção certa, perdido.

 

Mas em dado momento os olhares dos dois se cruzam. Ele esboça um sorriso quase imperceptível, enquanto os olhos dela voltam a se encontrar, brilhantes. Ele volta a olhar só para a vassoura; ela dá o troco para o menino.



Escrito por Damasceno às 12h42
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Chico, Lula e a política

Abaixo, copio e colo uns trechos da entrevista publicada na Folha com o Chico, no último sábado, realizada por Fernando de Barros e Silva.

 

É alentador ver que ainda há gente bem inteligente, como o Chico, capaz de dizer certas verdades que a tal da “sociedade civil” e os "formadores de opinião" não dizem.

 

Um trecho, sobretudo, casa com algo que já serviu de mote para uns bons papos sobre política com as quatro ou cinco pessoas que conheço e são capazes de conversar sem tratar o tema como uma disputa futebolística ou religiosa: “No fundo, sempre existiu no PT a idéia de que você ou é petista ou é um calhorda. Um pouco como o PSDB acha que você ou é tucano ou é burro [risos]”, diz Chico.

 

A respeito de seu novo disco, “Carioca”, devo escrever algo por aqui em breve.


Folha - No fim de 2004, em entrevista à Folha, você via uma onda de ódio aos pobres e de ódio a Lula no país. Entre aquele diagnóstico e a situação de hoje houve a crise do mensalão. Você está decepcionado? O que mudou no governo Lula?
Chico Buarque -
É claro que esse escândalo abalou o governo, abalou quem votou no Lula, abalou sobretudo o PT. Para o partido o escândalo é desastroso. Espero que disso tudo possa surgir um partido mais correto, menos arrogante. No fundo, sempre existiu no PT a idéia de que você ou é petista ou é um calhorda. Um pouco como o PSDB acha que você ou é tucano ou é burro [risos].
Agora, a crítica que se faz ao PT erra a mão. Não só ao PT, mas principalmente ao Lula. Quando a oposição vem dizer que se trata do governo mais corrupto da história do Brasil, é preciso dizer "espera aí". Quando aquele senador tucano canastrão vai para a tribuna do Senado dizer que vai bater no Lula, dar porrada, quando chamam o Lula de vagabundo, de ignorante, aí estão errando muito a mão. Governo mais corrupto da história? Onde está o corruptômetro? É preciso investigar. Tem que punir, sim. Mas vamos entender melhor as coisas.

Folha - Como assim?
Chico -
Pergunte a qualquer pequeno empresário como faz para levar adiante seu negócio. Ele é tentado o tempo todo a molhar a mão do fiscal para não se estrepar. O mesmo vale para o guarda de trânsito. E assim sucessivamente. A gente sabe que a corrupção no Brasil está em toda a parte. E vem agora esse pessoal do PFL, justamente eles, fazer cara de ofendido, de indignado. Não vão me comover. Eles fazem o papel da oposição, está certo. O PT também fez o "Fora FHC", uma besteira.
Mas o preconceito de classe contra o Lula continua existindo -e em graus até mais elevados. A maneira como ele é insultado eu nunca vi igual. Acaba inclusive sendo contraproducente. O sujeito mais humilde ouve e pensa: "Que história é essa de burro!? De ignorante!? De imbecil!?". Não me lembro de ninguém falar coisas assim antes, nem com o Collor. Vagabundo! Ladrão! Assassino! -até assassino eu já ouvi.
Fizeram o diabo para impedir que o Lula fosse presidente. Inventaram plebiscito, mudaram a duração do mandato, criaram a reeleição. Finalmente, como se fosse uma concessão, deixaram o Lula assumir. "Agora sai já daí, vagabundo!" É como se estivessem despachando um empregado a quem se permitiu esse luxo de ocupar a Casa Grande. "Agora volta pra senzala!" Eu não gostaria que fosse assim.

Folha - Você acredita que o Lula seja de fato visto como uma ameaça pelos mais ricos?
Chico -
A economia, na verdade, não vai mudar se o presidente for um tucano. A coisa está tão atada que honestamente não vejo muita diferença entre um próximo governo Lula e um governo da oposição. Mas o país deu um passo importante elegendo o Lula. Considero deseducativo o discurso em voga: "Tão cedo esse caras não voltam, eles não sabem fazer, não são preparados, não são poliglotas". Acho tudo isso muito grave.

Folha - Você vai votar no Lula?
Chico -
Hoje eu voto no Lula. Vou votar no Alckmin? Não vou. Acredito que, apesar de a economia estar atada como está, ainda há uma margem para investir no social que o Lula tem mais condições de atender. Vai ficar devendo, claro. Já está devendo. Precisa ser cobrado. Ele dizia isso: "Quero ser cobrado, vocês precisam me cobrar, não quero ficar lá cercado de puxa-sacos". Ouvi isso dele na última vez que o vi, antes de ele tomar posse, num encontro aqui no Rio.

Folha - Vários artistas andaram criticando o PT, o governo e Lula. O meio artístico, ao que parece, não vai mais embarcar no "Lula lá".
Chico -
Pelo que eu ando lendo, a grande maioria dos artistas está contra o Lula. Tenho a missão de contrabalançar um pouco isso [risos]. Há também entre os artistas um pouco daquela competição: quem vai falar mais mal do presidente? Mas concordo em parte com o Caetano. Em parte.
Quando ele fala que as pessoas do atual governo se cercam da aura de esquerda para justificar seus atos e reivindicar para si uma posição superior à dos demais, tudo isso também vale para o governo anterior. Os tucanos costumam carregar essa aura de esquerda com muito zelo. Volta e meia os vemos dizendo que foram contra a ditadura, que são intelectuais de esquerda. Fernando Henrique foi eleito como candidato de centro-esquerda. Na época a vice entregue ao PFL parecia algo estranho. Depois se provou que não era.



Escrito por Damasceno às 12h00
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