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Memórias afetivas (ou não) de copas do mundo
A primeira lembrança que tenho de copas do mundo vem de 1986, quando eu tinha quase seis anos. Já gostava de futebol e ia com freqüência ao Estádio do Morumbi (as tardes de domingo na casa do Tricolor merecem um outro texto), mas o que mais me animava durante o Mundial do México eram as figurinhas do torneio. Cada vez que meu pai chegava com novos pacotinhos era uma felicidade incrível, assim como a meleca que era feita com a cola e o jogo de bafo com os amigos da rua.
Dentro de campo, a primeira lembrança que me vem à cabeça é o pênalti perdido por Zico nas quartas-de-final contra a França. No entanto, por mais que eu me concentre, não consigo lembrar da reação das pessoas à minha volta – assim como quem eram as pessoas que estavam em casa na ocasião.
Acho que o jogo contra a França foi também a primeira decisão por pênaltis que acompanhei com atenção. Não entendi direito aquela derrota. Creio que não saquei exatamente o que eram quartas-de-final, assim como não tinha tanta noção do que a derrota representava, já que desde 1970 o Brasil não ganhava a competição.
Em 90 a história foi diferente. É bacana pensar como a sua vida sofre transformações a cada copa do mundo. A derrota para a Argentina nas oitavas-de-final dessa vez foi doída, mas eu sabia que eles eram os atuais campeões do mundo e imaginei que, de fato, os melhores teriam que vencer. A Argentina tinha Maradona, jogador que eu sempre gostava de ver ao lado do ídolo Careca nos jogos do Campeonato Italiano, com as inesquecíveis transmissões do Silvio Luiz.
Apesar do talento de Maradona, o jogador da Copa de 90 para mim foi Marius Lacatus, da Romênia. Fiquei atrás dele por quase um mês, pois era a sua cara feia que faltava para completar meu álbum de figurinhas. Um belo dia, voltando para casa, vi uns conhecidos da escola jogando bafo. Ao chegar perto dos meninos, lá estava ele, Lacatus, à frente de todo o bolo de figurinhas que seria espalmado. Não tive dúvidas: saquei da mochila mais de 30 figurinhas e troquei-as pelo romeno.
Veio 1994 e finalmente minha geração pôde ver o Brasil campeão. Era época da turma da Rua Dias Vieira, 8ª série, festinhas e coisa e tal. Brasil à parte, me vem à cabeça o goleiro da Bélgica, Michel Preud’Homme, e suas sensacionais defesas. Nada como poder ver uma Copa sossegado, sem ter que trabalhar, podendo tentar imitar as jogadas mais bonitas assim que as partidas acabavam...
Em 1998, a primeira lembrança é raivosa. Trabalhando no suporte técnico da Five Star, não foi permitido pelo nosso infeliz chefe, Eduardo Naufal, assistir à estréia do Brasil contra a Escócia. O jeito foi improvisar e instalar uma placa de TV no computador. Vi o jogo, mas não pude comemorar nenhum gol. Nos jogos seguintes a atitude babaca não se repetiu.
O jogo daquela Copa foi a semifinal entre Brasil e Holanda. Infelizmente as TVs raramente passam o lance mais bonito do Mundial: já na prorrogação, Ronaldo pegou a bola no meio-campo e deu uma daquelas suas arrancadas incríveis. Parecia gol certo, até que o volante Seedorf ligou o turbo e o alcançou de modo impressionante, impedindo o desempate. Depois disso, mais uma decisão nos pênaltis, mais uma final com a presença do Brasil.
O dia da final merece um parágrafo à parte. Creio que foi uma das raríssimas vezes em que todos os Homellets se reuniram para ver um jogo de futebol – apesar de o futebol ser o principal motivo que nos tornava um grupo fechado. Antes da final, churrasco e ping-pong na casa do Carlos. Durante a partida, duas tragédias: os 3 a 0 enfiados pela França e a reação cômico-raivosa do anfitrião a cada gol sofrido. Só quem estava lá lembra...
Veio 2002 e parecia tudo certo: trabalhando na Gazeta Esportiva e fazendo faculdade, imaginava que estava dando início a uma bela carreira no jornalismo esportivo. Menos de um ano depois eu já havia mudado de idéia quanto aos meus rumos profissionais, mas aquele mês na redação foi muito legal.
Jogos de madrugada, café-com-leite no lugar de cerveja, pão quente ao invés de churrasco. Devido à escala de horários na Gazeta, pude ver a final em casa, com minha avó ao lado no sofá. Palmeirense discreta, nunca havia visto dona Maria Francisca vibrando e batendo palmas daquela forma. Os dois gols de Ronaldo me fizeram conhecer uma avó que eu não imaginava, capaz de sofrer e ir ao êxtase com futebol, apesar da idade já avançada. Alguns meses depois ela veio a falecer, e essa é a lembrança mais bacana que guardo dela, além do delicioso e inigualável frango de panela que só suas mãos sabiam fazer.
Em 2006, desconfio que quem mais vai curtir a Copa é Damasceno-Pai. Aposentado desde o ano passado, finalmente ele poderá ver todos os jogos que quiser, primazia que nunca pôde ter devido aos horríveis horários em que trabalhava (sábados e domingos inclusive). É muito legal também ver o brilho nos olhos dos amigos que gostam de futebol, a poucos dias de começar a competição. Sem saber definir direito a sensação que bate em nós a cada quatro anos, o que mais ouço é um simples e direto “Copa é bom demais, né?”. Bota bom nisso!
Escrito por Damasceno às 14h45
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Como dois e dois são cinco

Depois de muito tempo, terminei de ler “Como dois e dois são cinco”, livro do jornalista Pedro Alexandre Sanches (ex-Folha, atualmente na Carta Capital) sobre a trajetória artística e pessoal (muito mais artística) de Roberto Carlos.
O livro não é nenhum “Guerra e Paz” (no que se refere ao número de páginas), mas mesmo assim demorei muito para lê-lo, ao contrário das outras coisas que tenho lido ultimamente. Desde sua primeira página, o autor não esconde toda sua admiração pela obra de Roberto. Em alguns momentos, chega a soar exagerado esse sentimento, mas é esse mesmo exagero que dá ao autor a credibilidade necessária para fazer críticas pesadas à fase mais recente da carreira do Rei, marcada pelo nível ruim da maioria de suas canções e por um conservadorismo irritante.
É de admirar a ausência de um livro que analisasse mais a fundo a obra de Roberto Carlos. Gostando ou não de seu estilo, trata-se do cantor de maior sucesso da história do Brasil. Pedro Alexandre Sanches (ou PAS, pra quem está acostumado a ler seus textos) faz isso muito bem, analisando disco a disco do Rei, mostrando por A + B seus principais méritos e limitações, bem como a trajetória de Erasmo Carlos e Wanderléa, seus principais parceiros de Jovem Guarda.
A divisão dos capítulos também é bem interessante. Há capítulos que tratam exclusivamente da obra do Rei, em ordem cronológica. Há outros, ficcionais e grafados em itálico, que mostram a influência de sua obra nos lares brasileiros. E há também capítulos em que são contadas as biografias e a trajetória de artistas que em algum momento de suas carreiras foram “rivais” de Roberto – entre eles estão Marcos Valle, Belchior, Rita Lee, Wilson Simonal e Tim Maia, merecedor de dois capítulos.
Em alguns momentos, PAS exagera nas suposições que faz ao analisar determinados períodos da carreira de Roberto – principalmente quando ele faz ligações entre determinadas canções e o momento político vivido no Brasil. A parte mais rica do livro está na comparação do que Roberto fazia com aquilo que compositores e cantores contemporâneos estavam produzindo.
A maior conclusão que se tira dos mais de 40 anos de carreira de Roberto é que ele sempre foi um cantor com a capacidade de antever aquilo que o brasileiro médio gostaria de ouvir. Sua alienação política e cultural era compensada pelo conteúdo de suas letras e pelo tipo de canções de seus discos – numa mostra que talvez contradiga sua famosa “alienação”. O povo está começando a se influenciar pela temática do rock? Jovem Guarda nele! Está aumentando o número de divórcios no país? Tome canções que tratam do tema! Seu público dos anos 60 e 70 está envelhecendo? Tome canções para gordinhas e mulheres de 40!
Mesmo entre aqueles que não gostam de Roberto Carlos, é consenso que sua fase mais criativa e qualificada aconteceu na transição dos anos 60 para os 70. São dessa época músicas como “Quando”, “Ciúme de Você”, “Como É Grande Meu Amor Por Você”, “Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo”, “Sua Estupidez”, “Detalhes”, “Amada, Amante”, “Todos Estão Surdos”, “Como vai você” e “Debaixo dos Caracóis de Seus Cabelos”. No entanto, seu maior sucesso comercial aconteceu na transição dos anos 70 para os 80, quando alguns de seus discos ultrapassaram a barreira de 2 milhões de cópias vendidas – marca só ultrapassada pelo primeiro LP de Xuxa, de 1986, que chegou a impressionantes 3,5 milhões!!
Uma boa surpresa do livro foi constatar que, apesar da quase completa alienação de Roberto Carlos, em determinadas épocas ele se permitiu gravar algumas músicas que demonstravam o contrário. O título do livro é um desses casos. “Como dois e dois são cinco” é um dos versos da canção “Como dois e dois”, composta por Caetano Veloso em retribuição a “Debaixo dos Caracóis de seus Cabelos”. Em meio à truculência de Médici, o Rei cantou versos como “Tudo vai mal / Eu sigo apenas porque eu gosto de cantar” e “Meu amor / Tudo em volta está deserto / Tudo certo como dois e dois são cinco”.
Ao longo de toda a leitura, a melhor coisa que pude fazer foi ouvir praticamente todos os discos do Rei (viva a Rádio UOL!) e perceber que, conforme diz o livro, o prestígio conquistado a cada ano permitia a Roberto algumas regalias, como trazer para o Brasil músicos de primeiro time, utilizados por artistas como Frank Sinatra e Tony Bennett.
Outra conclusão que se tira a partir da audição de seus discos é que, ao contrário de Chico, Roberto Carlos não tem grandes “canções de lado B”. Ou seja, as músicas do Rei que fizeram sucesso são aquelas que todos conhecem, não há nada de muito relevante a ser “descoberto” pelas novas gerações – a não ser por aqueles que não conhecem absolutamente nada de sua obra. Apesar disso, o que todos conhecemos da obra de Roberto Carlos é muita coisa – quantidade o suficiente para entender por que ele fez e faz tanto sucesso. “Ninguém fala de amor como o Rei” e um chavão chatíssimo, repetido a cada especial de final de ano da Globo, mas nem por isso é uma frase mentirosa. Chico, Caetano, Vinícius e outros expoentes da música falam de amor de modo muito mais qualificado, mas em muitas ocasiões isso afasta a grande maioria da população de suas obras. Com Roberto é diferente: nem pior, nem melhor. Apenas diferente.
Escrito por Damasceno às 15h10
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